terça-feira, 2 de março de 2010

Matando Aula


Hoje acordei sem disposição para as coisas,mal conseguia me levantar da cama. Minha irmã ficou toda hora me chamando dizendo que eu iria me atrasar para a faculdade,eu sem nenhuma vontade de levantar disse que estava passando muito mal. Tadinha! Ela foi na rua,comprou remédio e disse pra eu ficar em casa descansando. Chegou a vez da minha mãe que ficou me perguntando o por que de eu não ter ido para faculdade. A resposta não poderia ser diferente,-não estou me sentindo bem,acho que estou ficando com febre!
Logo quando as duas saíram para seus respectivos trabalhos eu melhorei e pulei para o computador,fui logo checar meus emails e quando abro um email da faculdade está lá um comunicado informando que hoje não haveria aula.
É fiquei feliz por não ter levado falta mas ao mesmo tempo me senti um idiota por ter inventado toda aquela mentira. Isso até me lembrou um episódio do Chaves,onde eles faltam a aula e no final era sábado. Fiquei rindo sozinho ao perceber que eu não nasci para ser um Ferris Bueller. A única coisa que me restou foi ficar vendo o filme Curtindo a Vida Adoidado debaixo de um edredon,como se eu realmente tivesse doente!!
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Quem ousaria acreditar que o cinema dos anos 80, mais especificamente as comédias adolescentes, poderia um dia expressar uma época e representar de tal forma uma geração que não se perdeu no tempo, mas que permanece na mente e no coração de tantos jovens (ou não) de nossa contemporaneidade? Como, então, alcançaríamos tão agradável sensação de reconhecimento ideológico, se não tivéssemos a chance de ver e rever nas telinhas de sessão da tarde, filmes como um “Clube dos Cinco” ou “Curtindo a Vida Adoidado”, que, através de um discurso libertário, vem trazer-nos novas perspectivas de vida e de comportamento, povoando nosso imaginário e discutindo nossos problemas sem precisar impor-se autoridade no assunto?
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Assistir aos bons clássicos de John Hughes é justamente sentir vibrar na tela uma emoção atemporal. Os jovens daquela época estão ali pra dialogar com a nossa porque, de fato, pouca coisa mudou de lá pra cá. Ainda somos filhos de uma geração desiludida. E John Hughes soube captar o que, em minha opinião, seja o mais importante. Nos anos 80, ou talvez antes, os jovens já ignoravam de imediato o apoio de uma figura de autoridade para entender aquilo que eles estão passando. E Hughes transpôs isso na figura de Ferris Bueller (Mathew Broderick), que não se confronta com o pai pelo simples fato de não conseguir extrair de “seu velho” um conselho relevante. A gíria pode ser engraçada, mas revela não só a diferença de idade entre pai e filho, mas antes de tudo, a diferença de mundo. Ferris Bueller sabe que seu pai é bem intencionado, mas incapaz de orientá-lo. Com os mesmos olhos encara a escola. A instituição escolar talvez seja pior de lidar, principalmente se quem comanda a sala de aula sejam aqueles sujeitos velhos e completamente desinteressantes que dão aula como se estivessem lecionando para as paredes.
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Pra que então perder tempo com um dia numa escola tradicional se o dia lá fora está magnífico? Se nada do que passa na sala de aula faz sentido? “A vida se move depressa demais. Se você não pára e não olha ao redor dela de vez em quando, pode perdê-la de vista.”, nos diz Ferris Bueller, determinado a curtir o seu dia da melhor forma possível, mesmo que para isso tenha que enganar os pais, alegando estar doente. E não se pode curtir um dia sozinho. Seu melhor amigo Cameron Frye (Alan Ruck) tem que ressuscitar do seu leito (imaginário) de morte e liberar a bela Ferrari do papai para o passeio, pois, como disse, tem que ser um dia magnífico. A namorada de Ferris (Mia Sara), resgatada da escola graças à magnífica atuação de Frye (que se faz passar pelo pai da moça através de uma ligação telefônica), realmente não tem o que se queixar. O diretor da escola, o incansável Edward Rooney (Jefrey Jones), tenta de um tudo para desmascarar as artimanhas do doce e querido Ferris Bueller, cuja suposta doença faz com que sua popularidade e aceitação na escola cresçam cada vez mais, o que acaba por aumentar o rancor de Jean pelo irmão Ferris, já que a mesma dedica todo o seu tempo sempre cumprindo ordens, fazendo os deveres de casa, enquanto o irmão se dá bem sem sequer se esforçar pra isso.
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Mas qual seria o roteiro de passeio ideal dos três amigos? O que vocês sugeriram? Que tal uma parada rápida na Bolsa de Valores? “O quê? Mas que ridículo!”, você leitor poderia exclamar. Mas qual o problema de observar o caos vivido pelas centenas de pessoas que trabalham na Bolsa de Valores, esses pequenos seres humanos que para garantir uma vida de conforto se inserem em um ambiente esquisito, abafado, e, agora sim, tão ridículo?! Até o próprio desajeitado Cameron faz hora com os engravatados, imitando os sinais confusos pela quais os mesmos se comunicam. Prosseguindo o passeio, outra parada rápida para… Ah! O alto de um prédio, só para olhar as coisas de um outro ângulo, para ver toda a cidade lá de cima, e aquelas pessoas tão minúsculas, vivendo seus minutos de uma forma tão mecânica, lá em baixo. A próxima parada se faz num museu, onde podemos ver lindas tomadas daqueles jovens apreciando quadros de pintores famosos. E aqui abro um destaque para a cena em que Cameron aguça seu olhar para um garotinho perdido numa pintura. O garotinho ali representaria o próprio Cameron, subordinado pela onipotência do pai, sempre posto ali para ridicularizar o filho. Para reabastecer as energias, nada melhor que uma parada num restaurante caro, que, ironicamente, aceita a entrada dos jovens mal vestidos pelo simples fato de Ferris fazer-se passar por um importante magnata. Num mundo onde o “ter” prevalece sobre o “ser”, porque não reinventar nossa realidade por alguns minutos?
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Vale a pena. E como vale a pena ver Ferris Bueller em cima de um dos carros alegóricos de uma parada alemã (sim, uma parada alemã no braço armado da América, que se chama German American Appreciation Day), dublando Twist and Shout para uma multidão que se enlouquece em pleno coração de New York! Não… Ferris Bueller não é nenhum delinqüente, muito menos um marginal que aspira medo, nem mesmo está disposto a fazer uma revolução que desmoralize as figuras autoritárias de sua juventude. Ele é a favor do “sim”, de viver o instante como se fosse realmente o último, mesmo que seja por um só dia. Mesmo que tenha que brincar com as representações, de ser “o outro” para a sociedade que costuma a subjugá-lo.
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É preciso deixar de ter medo de viver à vida, de se enterrar numa cama recheada de remédios inibidores de felicidade. É preciso também parar de seguir o manual de orientação, de seguir o que está na bula, na receita, nos costumes… É preciso parar de invejar a vida do outro, sem voltar os olhos para a sua. É esta a grande lição que nos apresenta Ferris Bueller. E se você ainda não entendeu, desligue já esse computador e saia pra ver a luz do dia.
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CENA DA PARADA
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